Em uma manhã qualquer, sentado em uma sala de espera de uma prefeitura de algum município brasileiro, um senhor espera ser atendido por alguma autoridade presente. No envelope em suas mãos um pedido de emprego para seu filho. Ao seu lado outras duas pessoas também aguardam. Uma delas está buscando a liberação de um exame que não é coberto pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A outra quer ir para São Paula visitar um parente que está doente. Em seguida uma surge no corredor uma senhora aos berros. Ela grita desesperadoramente “Eu tenho três filhos! Onde eles vão ficar!? Alguém tem que resolver isso!“. Ela deixou uma panela no fogo e a casa sofreu um incêndio. Estava ali para saber onde iria morar agora.
Nenhuma dessas situações são problemas públicos. Não é obrigação do governo dar emprego, cobrir todos os tratamentos infinitamente, levar pessoas para visitar seus parentes enfermos em locais distantes e nem dar casa para pessoas que foram desatentas ou sofreram infortúnios com seus próprios patrimônios. Todas elas (e talvez você) entretanto, acreditam que merecem receber algo da autoridade governamental.
A muito tempo vem sendo alimentado no coração do brasileiro a ideia adolescente de que “se você quer, você precisa. Se você precisa é uma necessidade e você tem direito de não passar necessidade“. Em uma sociedade majoritariamente cristã, que nos leva a compadecer daqueles que sofrem, uma perversão foi posta em movimento. Alimentamos a concepção absolutamente desconectada da realidade de que se alguém sofre isto é de alguma maneira um problema da coletividade, causa do capitalismo ou do sistema e que isso deveria ser resolvido pelo governo. Discordar seria apenas crueldade.
Uma música popular da falecida cantora Marília Mendonça inclusive revela essa distorção psicológica – o single “Deprê, que conta a história de um relacionamento que chegou ao fim e que por isso ela sofre. A certa altura da canção a cantora afirma “O comércio era pra tá fechado. O sol não devia ter saído. Porque todo mundo tá sorrindo?“. Em resumo, a música revela a crença de que é fundamentalmente injusto que as pessoas apenas sigam felizes com suas vidas normalmente enquanto ela sofre.
Só que a vida é assim. Os seus problemas são só seus. Suas dores são só suas. Sua angústia pertence apenas a você. Suas necessidades não são problemas dos outros e, mesmo que você não tenha forças físicas sustentar seus próprios problemas, ninguém tem a obrigação de carregar os seus fardos por você. Isso pode acontecer, mas é caridade cristã, não uma obrigação.
Você certamente, por exemplo, já ouviu alguém berrando “Tem gente morrendo nos hospitais!“. Assim que essa frase ecoa no ar paira um silêncio e essa é a única resposta socialmente aceita no Brasil – o silêncio. Afinal perder um ente querido é triste e que isso seja contestado parece ser apenas cruel.
O problema é que – pessoas morrem. Todos os dias. Todas as horas. Todos os minutos e aos montes. Não há como impedir isso até que seja inventada a imortalidade. Alguém morrer em um hospital por causas naturais é apenas parte da vida. Só é um problema da sociedade, e por isso de governo, se a causa da morte foi alguma sorte de negligência ou erro no atendimento.
É como aquela história de uma senhora que entrou gritando em um prédio da Defensoria Pública. Ela queria abrir um processo mas não sabia contra quem. Seu amado marido morreu na queda de um raio. Ela estava indignada. Certamente estava estava sofrendo e aparentemente alguém deveria sofrer junto. Gritava que ninguém queria ajuda-la. No final resolveram processar uma empresa de celular que tinha uma antena próxima. Parece absurdo né? Só que coisas assim acontecem diariamente em várias repartições públicas Brasil afora.
Infelizmente, por entender que sofrer é parte da vida, o brasileiro e suas autoridades passaram a criar de maneira ininterrupta novas leis que garantem cada vez mais direitos. A legislação é tão vasta, garante tantas coisas e para tanta gente, que chegamos ao nível do direito particular.
No Brasil, assim como nas sociedades feudais, a lei é feita de maneira exclusiva para cada pessoa. A generalidade da legislação, ou seja, um código legal que se aplique a todas as pessoas, tornou-se apenas uma ficção.
No resumo geral de tantas garantias e direitos está a ideia profunda de que todos tem direito a tudo o tempo todo. Como em um resort all inclusive, se você não está feliz algo está errado. Todas as necessidades da população devem ser satisfeitas pelo governo e o tempo todo. Trata-se da busca absolutamente adolescente de tentar prover uma felicidade imperturbável. Em havendo infortúnio (e eles existem aos montes), o governo, como uma mãe (ou um hotel), tem a obrigação de resolver o problema.
Não importa que não existam meios para tal – se alguém quer, precisa e se precisa é por ter necessidade e ninguém deveria passar necessidade. O resultado é que, na busca de solucionar as dores e problemas pessoais de cada um de maneira individual, criou-se uma máquina governamental gigantesca, cara, ineficiente e que conduz processos cada vez mais absurdos e incompreensíveis. Assim como no livro de Basquiat, o governo brasileiro tornou-se uma ficção onde todos acham que podem viver as custas de todos e ninguém precisa pagar a conta.
No papel, direito a tudo, mas na prática, pela própria impossibilidade física, acesso a quase nada – nem ao básico. Isso não é problema de gestão/corrupção. É um problema de concepção. Na busca de deixar todo mundo feliz, deixamos uma sociedade de 200 milhões de pessoas infelizes. Passou da hora do governo parar de tentar ser pai e mãe. Passou da hora de dizer não ao invés de sim para tudo.
O brasileiro sai do país a trabalho ou passeio e volta dizendo “nossa, as pessoas lá são mais frias“. Não é isso. É que as pessoas lá não estão preocupadas em te fazer feliz ou se você acordou particularmente triste – esse é um problema só seu. Ninguém será seu fardo e você não tem o direito de ser fardo de ninguém. Isso não é um defeito da sociedade, é apenas o jeito adulto de viver a vida e construir uma sociedade.











