A suspensão da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, anunciada pelo Ministério da Saúde após a identificação de 42 casos de sintomas severos — incluindo três internações e duas mortes sob investigação —, reacendeu o debate sobre os limites entre a crítica técnica e a desinformação no ambiente médico e científico. A interrupção ocorre em um cenário de pressão sobre a liberdade de expressão de profissionais de saúde que levantam questionamentos a imunizantes.
O médico infectologista Francisco Eduardo Cardoso Alves, conselheiro federal de Medicina por São Paulo, avalia que o uso de termos como “fake news” e “negacionismo” inibe debates legítimos e prejudica a farmacovigilância. Segundo ele, o Ministério da Saúde acertou na suspensão, mas errou ao aplicar o imunizante nacional em 500 mil profissionais sem estudos de segurança prévios e ao tentar restringir o contraditório. Ele aponta que a limitação de doses da vacina Qdenga, da farmacêutica Takeda, comprada pelo governo, deveria ter sido mais discutida publicamente antes da aposta na versão brasileira.
Para o jornalista e biólogo Eli Vieira, presidente da Free Speech Union Brasil, a identificação de eventos adversos depende da liberdade para relatar suspeitas. Ele argumenta que mensagens excessivamente otimistas de autoridades geram hesitação vacinal quando entram em choque com a realidade, citando o caso da Coronavac, cuja eficácia para casos graves foi divulgada pelo Butantan como de “100%”, informação classificada por ele como falsa.
O clima de restrição gerou outros episódios recentes. A Justiça Federal do Rio de Janeiro determinou o bloqueio das redes sociais da médica Isabel de Fátima Alvim Braga, servidora da Fiocruz, após ação da AGU motivada por críticas da profissional a vacinas e pesquisas da fundação. No Congresso, tramita o PL 2.745/2021, que visa criminalizar a divulgação de informações falsas sobre vacinas, sob críticas de que a medida pode cercear o debate científico.










