Afinal, qual motivo das pesquisas errarem tanto?


Já não é de hoje que, quando o resultado de uma eleição é divulgado, uma pergunta em geral paira no ar – “afinal, qual o motivo das pesquisas errarem tanto?” Fosse algo esporádico ou localizado, não chamaria tanta atenção, mas não é – as pesquisas eleitorais tem errado muito e de maneira reiterada. Em 2026 não foi diferente.

É neste momento que você tende a acreditar que existe uma grande conspiração por trás desses erros. Talvez até concorde com responsabilização e punição dos veículos de imprensa que publiquem tais equívocos. Conspiradores do mundo, uni-vos! Só que não, não parece ser o caso.

Por um lado, se percebemos os erros das pesquisas eleitorais de um lado, a influência desses enganos parecem ser muito menores do que de fato são. Em resumo, nenhuma pesquisa enganosa modificou o resultado que saiu das urnas, afinal foi justamente por eles que fomos capazes de perceber que houve erro.

Acreditar que o eleitorado se resolveu na véspera da votação – explicação dada com frequência pelos institutos de pesquisas após as eleições para justificar seus deslizes – também não parece ser verdade. É possível crer que uma pequena parcela eventualmente pode decidir em quem votar na véspera, mas isso não se aplica quando o erro altera de maneira consistente o que resultado eleitoral, mostrando que havia algo que os institutos de pesquisa não foram capazes de detectar.

Existem dois elementos que afastam a ideia de grande conspiração ou de erro de véspera.

O primeiro, são as pesquisas internas dos partidos e candidatos. Nenhum político mente para si mesmo. Políticos erram, erram com frequência, mas nenhuma campanha contrata uma pesquisa interna visando mentir para si mesma. O caso mais destacado neste ano é o de Eduardo Paes (PSD), que foi candidato a governador pelo estado do Rio de Janeiro. Todas as pesquisas (Datafolha, Quaest, Real Time Big Data, Prefab, etc.) indicavam Eduardo Paes a frente na corrida eleitoral com pelo menos 49% dos votos válidos e uma dianteira do segundo colocado, no pior dos cenários, acima dos 10%.

Na sexta feira, dia 1º de outubro, dois dias antes da eleição, a campanha de Eduardo pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a anulação dos votos de Anthony Garotinho (Rep). O TSE concedeu liminar e decidiu pela contagem sub júdice dos votos de Garotinho. Paes acreditava tanto que estava na frente que ponderou que a possível anulação desses votos garantiriam a ele uma vitória já em primeiro turno.

O detalhe interessante nessa história, é que a campanha de Douglas Ruas (PL), principal concorrente de Eduardo, também acreditava nisso. Além disso, como acompanhamos a campanha de Douglas por dentro, sabemos que as pesquisas internas esperavam no máximo um empate no dia da eleição.

Até o insuspeito Conexão Política, portal de notícias “da direita”, cravou uma possível vitória de Eduardo Paes no domingo, dia 4 de outubro.

A noite da eleição chegou, as urnas se abriram, os votos de Garotinho foram anulados e realmente a eleição terminou em primeiro turno, só que com Douglas Ruas eleito com 50,88% e Paes derrotado com 44,16%. O que aconteceu? Como ninguém, nem esquerda e nem direita, conseguiu prever isso em qualquer nível? Nem mesmo o site de apostas Polymarket previu.

Na eleição nacional não foi diferente, as pesquisas erraram e, para complicar, todas na mesma proporção. Em todos os levantamentos de primeiro turno – repetindo – EM TODOS OS LEVANTAMENTOS – o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecia com 2 ou 3 pontos de vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL). As urnas se abriram o que se viu foi o oposto disso, com Lula ficando 2% atrás. Como algo assim foi sequer possível?

Não havendo alguma grande conspiração entre mais de 10 institutos de pesquisas, além de bancos, empresas, sindicatos e veículos de comunicação, algo diferente deve estar na raiz do problema.

Sim, é possível que apareça alguém dizendo “mas o instituto X acertou”. Vale o dizer, a exceção confirma a regra. Institutos azarões, que acertam quando todos os outros erram, tem aparecido em todas as eleições – a habilidade de prever entretanto, dura apenas uma eleição, no processo eleitoral seguinte, erram junto com os demais. Foi assim com a Atlas/Intel, com a Paraná Pesquisas, com a Real Time Big Data, com a Prefab Future e agora com a Veritá. Em resumo, os azarões não servem de parâmetro.

Resta então duas alternativas – a fórmula/metodologia utilizada pelos institutos, na forma de realizar a pesquisa ou nos dois.

Caso o erro esteja na metodologia, é possível que o problema esteja em outro local e não nos próprios institutos de pesquisa, mas precisamente no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso em virtude dos dados utilizados para criar as amostragens da população saírem dessas duas fontes. É possível que os levantamentos do IBGE estejam refletindo errado a população brasileira ou que os dados do próprio TSE não estejam sendo capazes de dar conta da construção das amostragens. Sendo isso, uma empresa de pesquisa acabaria escolhendo o número errado das pessoas de cada perfil para entrevistar na composição da amostragem, criando uma imagem também errada do pensamento e intenção do eleitorado.

A segunda hipótese é que a forma de se aplicar a pesquisa também pode estar errada. Entrevistas feitas em locais de fluxo podem estar desconsiderando o alto número de pessoas que não sai casa por motivos diversos ou talvez o entrevistador esteja iniciando o questionário sem perguntar primeiro se o eleitor irá ou não votar, levando em conta a opinião de quem irá se abster.

Passadas as eleições do próximo domingo (25/10), os institutos de pesquisa certamente terão que revisitar suas fórmulas e mecanismos de sondagem. Em um mundo com Inteligência Artificial cada vez mais avançada e algoritmos que advinham o que querem os consumidores antes mesmos deles quererem, essa reconstrução de métodos de avaliação tradicionais será crucial para definir se haverá uma melhora na qualidade das pesquisas eleitorais publicadas ou se os institutos perderão a credibilidade de vez.

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