Em alguma universidade federal por ai, andando pelo campus você encontra um tipo bem conhecido. Um jovem senhor de 40 anos cabeludo e com barba por fazer usando uma camisa com o rosto de Che Guevara. Ele está lá protestando por alguma coisa em um ato político da militância de um partido de esquerda. Ao fundo toca a novíssima música de Erasmo Carlos “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”.
Você olha e pensa “deve ser professor”, descobre mais tarde que ele é aluno.
Ele cursa história e está no sexto período. Entrou na universidade com 20 anos e, entre idas e vindas, períodos sabáticos, trocas de curso e trancamentos, com 40 anos, ainda não conseguiu se formar.
Como sempre ouviu que tem muito potencial, é inteligente e sabe falar bem, se encontrou na militância política. Nosso país é tão desigual…
Leu três vezes o capitulo um daquele livro novíssimo de Jessé de Souza – A Elite do Atraso. Genial. Este é, dos dois livros que começou a ler na vida e nunca terminou, um de seus preferidos. O outro, é claro, não poderia deixar de ser, o prefácio do clássico de Eduardo Galeano – As veias abertas da América Latina.
Ele ainda está resolvendo o que fará depois da faculdade – vai seguir carreira acadêmica? Escrever para algum jornal? Ser professor em alguma tribo ou quilombo? Não sabe. Ele é, como na música de Renato Russo – tão jovem.
Seus colegas, que entraram na universidade junto com ele, já se formaram e estão trabalhando. Uns se casaram, tiveram filhos, outros passaram em algum concurso público. Outros até viraram, fale baixo para não causar confusão, “de direita”.
Aliás, como pode alguém votar no José Serra? Não que seja petista. Nunca foi, sempre criticou. Só não vai conseguir perdoar o José Serra por obriga-lo a votar na Dilma.
Na voz, um certo tom de revolta constante.
E assim ele vai. Ano após ano. Caminhando e cantando, passeando pela vida. Sustentado pelo pai de 65 anos que é dono de uma farmácia e pela mãe que é professora aposentada. Curiosamente, sem nunca dar um jeito.
Seus pais sempre tristes, imploram para que ele se forme, arrume um emprego e vá trabalhar. O irmão é médico e já está encaminhado. Os primos todos também já se resolveram. ELE NÃO.
O nome desse jovem senhor? Brasil.
Um jovem senhor cuja a idade começa a aparecer, mas que nunca se formou.
Será uma república? Uma autocracia? Comunista? Ocidental? Liberal? Social Democrata? Democrata Cristão? Desenvolvido? Em desenvolvimento? Subdesenvolvido? Fez opção pelos pobres? Pelos ricos? Pela classe média? Uma economia de mercado? Uma economia de estado?
Não sabe, ainda estamos decidindo. Afinal, somos tão jovens!
O Brasil envelheceu, cansou-se, mas ainda está as voltas da discussão de que país quer ser – de um projeto de país. Se sente próximo a Angola ou Moçambique, como se com eles regulasse idade – os dois tem apenas cinquenta anos de independência, nós temos duzentos.
Nossos parentes próximos, como Chile, Uruguai ou México, ainda que com problemas, já se resolveram. Isso para não citar os Estados Unidos ou Canadá, que se resolveram 100 anos atrás e regulam de idade e tamanho conosco. A China, que digamos, “entrou na faculdade depois”, já se formou. A Índia se forma em breve.
O Brasil, que nunca deixou de ser essa grande pátria desimportante, não superou muitos de seus dilemas sociais, trabalhando arduamente pelo retorno dos poucos que já tinha superado.
Redemocratização – existem presos políticos e exilados agora mesmo. Inflação – resolvemos com o plano real e os preços não param de subir. Previdência Social – já foram umas três reformas e o problema ainda persiste. Instituições – as nossas operam de maneira descabida e desavergonhada sem sequer se preocupar em parecer honestas. Não digo nem ser honestas, apenas parecer mesmo, ser já seria pedir demais.
Mas esse ano teve eleição, discutimos e venceu um novo projeto de país.
Após vinte anos o coração vermelho finalmente se aliançou ao velho comunista. Ele agora chega ao poder rejuvenescido, aos 81 anos de idade, pronto para falir quem paga para gente ficar assim. Em seu quarto mandato vai mudar tudo que está errado, dando fim a herança maldita de seu próprio governo.
Vamos dar um jeito meu amigo, superar as desigualdades e fechar as veias abertas, deixando de ser apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, de 40 anos que nunca se formou.
Brasil, se prepare, a formatura vem ai! Só é preciso acabar de ler um livro.