Após 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo foi reorganizado em áreas de influência pelas potências vencedoras. Países como o nosso passaram a existir sob soberania formal, porém inseridos em um sistema de monitoramento econômico, político e estratégico. Não era liberdade plena, mas era tempo.
Havia uma janela histórica para criar musculatura institucional, amadurecer como sociedade, fortalecer valores públicos e construir um projeto consistente de país desenvolvido. Não era simples. Havia limites externos. Ainda assim, havia uma chance real. Essa chance exigia algo básico que era fazer o dever de casa. Não fizemos.
A malandragem, esperteza, conchavos e pilantragem passaram a dominar as rodas políticas do país, dos estados e dos municípios. Isso não surgiu do nada. É o reflexo direto do que, aos poucos, aceitamos como normal enquanto sociedade.
Em todos os cantos, consolidou-se o interesse pelo dinheiro fácil, pela vantagem imediata, pela vida confortável sem esforço. Essa lógica foi naturalizada, e o cidadão comum passou a ser sistematicamente lesado por personagens que vivem sob regras próprias, seguros de que ninguém mais reage.
O resultado é um Estado contaminado por práticas criminosas. Quem escolhe o atalho é guiado pelo caminho fácil, pela ausência de limites e pela recusa do esforço. Onde não há esforço, não há responsabilidade. Onde não há responsabilidade, o crime prospera. O erro não corrigido deixa de ser exceção e passa a ser método.
Nesse processo, perdemos algo essencial. Como povo, perdemos a capacidade de indignação. Como pais, perdemos o pulso moral. Trocamos o exemplo pela conveniência, o limite pela tolerância excessiva, o certo pelo menos errado. Sem perceber, ensinamos que dar um jeito valia mais do que fazer o correto. A malandragem passou a ser vista como inteligência, a esperteza como virtude e o desvio como estratégia aceitável.
Quando os pais desistem da indignação, os filhos aprendem a negociar princípios. Quando a sociedade relativiza o certo, o ilícito encontra terreno fértil. O Estado não se tornou criminoso sozinho. Ele foi moldado por uma elite econômica e política que, por décadas, preferiu o atalho ao projeto de nação, e por uma sociedade cansada que tolerou demais.
No país do futebol, o placar já é de 7 a 1, e estamos jogando a prorrogação. Talvez já não haja mais tempo para arrumar a nossa casa como país. Educar exige tempo, presença e coragem, e essas escolhas foram sendo adiadas. Ainda assim, a prorrogação existe apenas para quem decide jogar diferente.
Há muito tempo entregamos as chaves à malandragem, acreditando que ela nunca entraria na sala, nunca sentaria à mesa e nunca educaria nossos filhos. Ela entrou, sentou e ensinou.
Por Cássio Monteiro, Arquiteto e Servidor Público











