O resultado de primeiro turno foi um choque completo na campanha nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) e para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para quem está de fora entretanto, o resultado não foi tão surpreendente assim – talvez na extensão, mas não nos efeitos.
Quatro anos atrás, quando Lula conquistou o Palácio do Planalto pela terceira vez, cravamos o que parecia óbvio para qualquer pessoa equidistante da situação – ele não venceu, seu adversário perdeu e isso é muito diferente. Políticos em geral costumam não entender essa máxima, já que os efeitos são exatamente os mesmos, mas sim, tem diferença.
Desde 2014 o Brasil permanece dividido em 3 blocos – 45% votam em uma direção, outros 45% na outra e 10% decidem os rumos do país. A conta foi feita a grosso modo, já que se olharmos os resultados eleitorais mais de perto, são menos de 5% das pessoas que tem decidido as eleições.
Isso significa na prática que nenhum candidato tem de fato tem visto seus planos, ideias e personalidade serem aprovados em uma maioria segura da população. Todos apenas experimentam uma troca por rejeição – está ruim com um, troca por outro. Foi o que aconteceu com Lula em 2022 – ele não venceu, foi Bolsonaro que perdeu.
Lula, ao assumir em 2023, teve então a possibilidade de construir um inimaginável fim positivo fim de carreira. Ele só precisava reproduzir a narrativa de que havia sido preso injustamente, que entendia seu papel de reunificar o Brasil e que por fim, se retiraria da vida pública sem concorrer a reeleição em 2026, abrindo espaço para uma nova liderança de esquerda. Não fez, no lugar disso não desceu do palanque e indicou dois partidários seus para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Para complicar, após o 8 de janeiro de 2023, o Brasil (e os políticos) perderam o termômetro social. As prisões e decisões com mão pesada perpetradas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, somadas ao destempero judicial que tomou conta do Brasil, sempre com dois pesos e duas medidas para casos necessariamente iguais, fizeram o brasileiro médio, acostumado até então a ir para rua protestar ao menor sinal de desgosto, ficar trancado dentro de casa evitando qualquer protesto ou manifestação mais contundentes sobre a real situação do país. Tudo isso somado, nublou a percepção de Lula, e do PT em geral, sobre o tamanho da real aprovação de governo federal.
Surgiu então a última dose do fel que a esquerda experimentou no resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no último domingo, dia 5 de outubro – os ataques aos eleitores que discordam de Lula, do governo e da esquerda. Tendo como base as eleições que acompanhamos, atacar é algo que o PT e sua militância fazem sempre de maneira muito eficiente.
Chamados recorrentemente de f4scistas a cada oportunidade desde 2018, o eleitor que discorda (ou não concorda) de Lula também teve de se acostumar a ser chamado de outros nomes, com suas pautas e reclamações sendo invisibilizadas e diminuídas o tempo inteiro. Reclamar de imposto? Coisa de Sonegador. Reclamar do aumento do custo trabalhista? Então fecha logo essa lojinha. Reclamar da impunidade? Vocês gostam de ver pobre m0rrer. Reclamar de ativismo judicial? Ataque a democracia. O preço das coisas subiu? Mentira, é apenas uma sensação. Reclamar da extensa rede de corrupção? Isso começou com Bolsonaro.
Isso sem nem considerar as ofensas destinadas a categorias inteiras de pessoas. Para mulheres que discordam – c0nservadia. Para negros que discordam – capitão do mato. Para gays que discordam – LGBTQIA menos. Para o pobre que discorda – CEO de MEI. Para evangélicos que discordam – família enlatada.
O ex vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, prefeito de Maricá, faz tempo vem fazendo alertas duros a postura de seu partido em diversos temas, defendendo uma aproximação do PT com o cidadão comum e o centro. Defendeu anistia para os presos do 8 de janeiro. Defendeu um revisão completa da postura da esquerda na relação com os evangélicos. Defendeu o combate armado a criminalidade. Criticou o alto teor ideológico da esquerda. Foi chamado pela juventude do partido de f4scista acompanhando um pedido de expulsão.
Atacar e desprezar repetidamente quem você precisa cativar nunca foi o jeito mais adequado de se conseguir votos. Só que o voto, e não a capacidade de gritar mais alto, é a coisa mais importante das eleições. Lula e o PT assistiram estarrecidos o resultado eleitoral do último domingo se perguntando onde é que estão errando e como isso foi possível. Talvez no fim Quaquá estivesse certo, era preciso se aproximar de quem criticava e não atacar – o resultado veio sorrateiro, em silêncio e avassalador, atingindo muito provavelmente de maneira irreversível o PT e com ele toda a esquerda.










