Opinião: um cruzamento e o egoísmo do motorista de Itaperuna

Opinião: um cruzamento e o egoísmo do motorista de Itaperuna

Quase todo motorista de Itaperuna já viveu a mesma cena: tentar fazer o retorno para o centro no sinal em frente à barbearia Universo Masculino e ser impedido por outro carro. Trata-se de um ponto estratégico do trânsito urbano, o último retorno antes do fim do miolo central, essencial tanto para quem segue ao centro quanto para quem vai em direção ao Bairro Niterói. Justamente por isso, tornou-se um dos cruzamentos mais problemáticos da cidade — não apenas pela engenharia viária, mas pelo comportamento de quem o utiliza.

O impasse começa quando motoristas decidem que a própria pressa vale mais do que a regra coletiva. Usam a faixa da esquerda, destinada exclusivamente ao retorno, para “furar a fila“. Avançam até a faixa de pedestres e, mesmo com o sinal verde para quem retorna, simplesmente param. Ignoram buzinas, travam o fluxo e aguardam tranquilamente a abertura do sinal para seguir em direção à Rodoviária, satisfeitos com a “esperteza” recém-executada.

É fácil identificar o vilão quando se está entre os prejudicados. Difícil é admitir o outro lado da história: quantas vezes esse mesmo motorista que hoje protesta já repetiu a prática? Quantas vezes quem agora se sente lesado foi, em outro momento, o responsável por bloquear o caminho alheio?

O problema não é o egoísmo em si – que é parte da natureza humana. O problema real é a ausência quase absoluta de consciência coletiva. A revolta surge apenas quando o prejuízo é individual; a autocrítica, quase nunca. Naturaliza-se o desrespeito como se fosse traço cultural imutável ou, pior, transfere-se a responsabilidade para o já sobrecarregado poder público, como se civilidade dependesse exclusivamente de fiscalização.

Esse raciocínio é o mais preocupante. Ele revela uma sociedade que só se comporta quando vigiada, que prefere obedecer a força do governo a respeitar o outro por convicção. Enquanto esse padrão persistir, o cruzamento continuará caótico — não por falha do trânsito, mas por falência do senso mínimo de convivência social.

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