Mundo: Empresa permite que pais selecionem embriões por cor dos olhos, altura e QI

Mundo: Empresa permite que pais selecionem embriões por cor dos olhos, altura e QI

Na última semana de novembro, os passageiros que circularam pelo metrô de Nova York encontraram uma campanha publicitária aparentemente inofensiva. Os anúncios espalhados pelas estações de metrô continham frases como “Tenha o seu melhor bebê”, “O QI é 50% genético” e “Esses bebês têm ótimos genes” apontando para uma página que em português seria traduzida por “escolhaseubebê.com”.

A empresa em questão é Nucleus Genomics, uma startup norte-americana voltada à análise genômica e ao uso de algoritmos preditivos aplicados à fertilização in vitro. A lógica é relativamente simples – no processo de fertilização in vitro, são gerados múltiplos embriões (com frequência, o número chega a oito). A maioria não será implementada no útero.

Diante de múltiplas possibilidades, algumas empresas calcularam que podem lucrar com os gostos dos pais endinheirados. A proposta da Nucleus, que não está sozinha neste mercado, é realizar relatórios genéticos detalhados para municiar de informações os casais que realizam fertilização in vitro.

A lista de características mapeadas pelo teste genético da Nucleus inclui quase 2.200 itens. A maior parte deles é de doenças. Na página, em destaque, estão palavras como doença de Alzheimer, câncer de mama e artrite. Só que também é possível ver itens problemáticos como altura, cor dos olhos, QI (Quociente de Inteligência), calvície e IMC (índice que mede a obesidade).

Apesar de entidades médicas dos Estados Unidos ressaltarem que essas técnicas ainda são experimentais e recomendarem cautela, do ponto de vista legal a seleção genética de embriões não possui impedimentos.

A ideia de melhorar a população por critérios foi um dos pilares das políticas implementadas por Adolf Hitler na Alemanha. O regime defendia que existia uma raça ariana superior e que o governo deveria fortalecê-la, ao mesmo tempo em que impedia a reprodução de quem era considerado indesejado.

Em 1933, o governo aprovou a Lei para a Prevenção de Descendência com Doenças Hereditárias, que autorizou a esterilização compulsória de pessoas com deficiência intelectual, transtornos psiquiátricos, epilepsia, cegueira e outras condições classificadas como hereditárias. Diversos tribunais especiais decidiam, com base em relatórios médicos, quem poderia ou não ter filhos. Ao todo cerca de 400 mil pessoas foram esterilizadas durante o período.

Por isso, a presença dos anúncios no metrô causou estranhamento entre pessoas familiarizadas com a história da eugenia. Embora os contextos sejam distintos (os programas eugenistas do início do século XX envolviam coerção estatal e violações sistemáticas de direitos humanos), a popularização de ferramentas que promovem escolhas baseadas em características genéticas pode reintroduzir práticas de exclusão de vidas consideradas menos valiosas.

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