O inevitável Bolsonaro!


No dia 4 de outubro de 1998, logo após a divulgação dos resultados das eleições nacionais, o campo da esquerda entrou em verdadeiro choque. Apesar das privatizações, apesar do arrocho fiscal, apesar dos inúmeros protestos de rua contra o governo, apesar da aliança entre o PT (Partido dos Trabalhadores) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e apesar da chapa com Luiz Inácio Lula da Silva candidato a presidente e Leonel Brizola candidato a vice-presidente, o então presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi reeleito no primeiro turno.

O choque foi tão grande que na época Lula chegou a cogitar não ser mais candidato a presidente – era sua terceira derrota eleitoral e ele imaginava que sua marca era a de um “derrotado”. A esquerda começou a rediscutir toda sua estratégia nacional pois havia sido varrida de todos os grandes centros de poder. Restavam apenas Olívio Dutra (PT), governador do Rio Grande do Sul, e Anthony Garotinho (PDT), governador do Rio de Janeiro. PSDB, PMDB e PFL elegeram praticamente todo resto dos governadores. Na Câmara Federal idem, com os três partidos, acrescidos do PPB (atual PP), elegendo 347 deputados. Senadores do bloco de esquerda (PDT, PT, PSB, PC do B e PPS) eram apenas 11 dos 81. Era o “inevitável” FHC.

Em todos os programas e jornais os analistas políticos partiam do suposto de que o PSDB era agora “inevitável” – uma posição quase que religiosa da ciência política brasileira – e que Fernando Henrique faria sem muita dificuldade seu sucessor. Quem negasse essa realidade era considerado delirante.

Quatro anos depois, em 2002, Lula concorre novamente e derrota José Serra (PSDB) como 61,27% dos votos. Venceu em todos os estados do país exceto Alagoas. O bloco de esquerda (PDT, PT, PSB, PC do B e PPS) elegeu 161 deputados, 15 senadores e 10 governadores. O inevitável FHC havia sido derrotado. Posteriormente Lula se reelegeu presidente em 2006 com 60,83% dos votos e em seguida faria de Dilma Rousseff sua sucessora com 56,05%. Era o “inevitável” Lula.

Lula era considerado o maior líder popular do Brasil e aceitar isso era a nova religião política. O PT era inevitável e novamente em todos programas e jornais os analistas políticos partiam deste suposto – quem negava era considerado “pária” e analista de botequim. Após a divulgação do resultado, voltando pra minha casa, encontro no elevador com uma moça que, vendo eu usar um broche do candidato adversário de Dilma, disse “estou muito sem esperança, acho que o PT nunca mais deixa a presidência”.

O tempo passou, o mundo girou e coube ao destino que no dia 28 de outubro de 2018, apenas 8 anos depois, Lula estivesse preso e Jair Bolsonaro fosse declarado eleito presidente da República com 55,13%.

Naquela noite o deputado federal eleito por São Paulo e cientista político Luiz Philippe de Orleans e Bragança cravou em suas redes “o PT irá diminuir e minguar, sem chance de recuperação, ficando restrito aos Diretórios Acadêmicos Estudantis (DCEs) das universidades e a oposição ao Bolsonaro será feita pelos liberais e sociais democratas (PSDB e MBL)”.

Bom, o resto da história você já sabe. Lula deixa a cadeia e derrota Bolsonaro em 2022 fazendo ressurgir o “inevitável Lula” e a previsão de fim do bolsonarismo com idosos chorando na frente dos quartéis. Quatro anos depois (2026) o PL e seus aliados elegem a maioria dos governadores, senadores, deputados, etc. e ressurge o “inevitável Bolsonaro”. Os analistas da direita fazem novamente previsões sobre o fim do PT e novamente vaticinam que Bolsonaro é a maior liderança popular do Brasil.

Contei toda essa história é para concluir o que deveria ser óbvio para todos os analistas políticos sérios – ninguém é inevitável, invencível ou está “caminhando com a história”. Todos que acharam e agiram assim terminaram mal, foram derrotados e deixaram um péssimo legado para o povo brasileiro.

Então, se ninguém é inevitável, de onde vem e para que serve essa estória? Encurtando a longa resposta, serve para justificar as decisões do líder político de turno, dando a ele uma áurea quase que mística de poder e sabedoria. Algo como “quem não se curva a essa inevitabilidade do destino que escolheu fulano como seu máximo representante neste tempo será atropelado por ele”. É a tentativa de justificar a fé na política e nos políticos.

Revisitando a história, isso não chega nem perto de ser uma verdade.

Só que o problema desse tipo de mensagem é que é por causa dela que tanto lulistas quanto bolsonaristas acreditam que são invencíveis, inevitáveis e imparáveis. É por acreditar nessa bobagem que um dos lados está sempre alegando jogo sujo dos adversários quando são derrotados, pois de fato acreditam que em condições normais de temperatura e pressão, sempre terão apoio popular e vitória eleitoral. Não que inexista jogo sujo, mas não é por causa dele que um ou outro lado tem perdido ou vencido, existem diversas outras coisas em discussão – como o custo de vida do cidadão médio, por exemplo.

Fernando Henrique passou, o PSDB passou, Lula passou e Bolsonaro também passará. A única máxima verdadeira que permanece é que quando as condições gerais de vida do brasileiro estão ruins, a população mexe no pêndulo ideológico.

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