Primeiro o país, depois o partido e por fim, a circunstancia pessoal de cada um!


“Primeiro o país, depois o partido e por fim a circunstância pessoal de cada um!” A frase, dita por Francisco Sá Carneiro (ex-primeiro-ministro de Portugal), continua tão atual hoje quanto foi na época em que foi cunhada pela primeira vez. No período em que governou, Portugal vivia sua primeira experiencia plenamente democrática e Sá Carneiro deu o tom da ética que deveria governar os políticos e o máximo que a sociedade poderia esperar deles.

O raciocínio é simples, primeiro o bem comum, sendo o objetivo principal da vida pública de um político. Friso – da vida pública de um político! Ou seja, o particular, o cidadão, o não político, o civil, não tem obrigação de colocar o bem comum em primeiro plano, esse é um dever do político/pessoa pública.

Sá Carneiro não acreditava que o estado deveria governar a sociedade (como os fascistas/comunistas), mas sim o contrário, crendo que os políticos e o estado deveriam servir a sociedade. Por isso começa sua sentença por essa parte “primeiro o país!”.

Em seguida cravou “depois o partido”. Esse trecho é normalmente defenestrado no Brasil. Ele representa a consideração com quem permite um político estar no comando em uma república funcional – o grupo, o time, a parte que me apoia. É normal o povo brasileiro acreditar que toda disputa por cargos e espaço é “ruim” e parte de alguma prática “suja” – lamento informar, não é.

Em todas as democracias – Dinamarca, Canadá, França, Reino Unido, Espanha e Estados Unidos, etc. – os cargos, espaço de governo e posição estratégica irão preferencialmente para os grupos (ou grupo) que ajudaram o governo de turno a ser eleito. Tem motivo? Sim! Quem luta junto, ganha junto. É a regra. Construir maiorias em democracias não é algo fácil, manter maiorias é mais difícil ainda. Isso significa que governar será sempre depender do apoio das forças que esperam ser contempladas no dia-a-dia do governo. São as conveniências, táticas e disputas partidárias.

Uma boa parcela dos eleitores brasileiros ainda não tem essa maturidade e acredita que participar da política precisa ser algo voluntário, uma doação desinteressada e que o interesse de participação fosse necessariamente ruim. Sá Carneiro, como um parlamentarista, acreditava que o interesse de participação era justo e legítimo, afinal como pedir/esperar o apoio de um grupo se não existe pretensão de dar a ele espaço, voz e representatividade no governo?

Por fim, fechou com o que considera menos importante na vida pública – “o interesse pessoal da cada um”. A ambição particular e as conveniências individuais, elas existem, não podem ser descartadas e são legítimas. Por outro lado entretanto, elas devem estar em submissão ao interesse de grupo e em última instância, em submissão ao interesse coletivo.

Sá Carneiro foi astuto e sincero suficiente para assumir como as coisas funcionam para além do bem comum. Ele assumiu que interesses partidários, de grupo e individuais existem e fazem parte da arte de governar. Querer que seja diferente não faz com que seja, apenas faz com que políticos usem táticas para esconder isso da população em geral.

Sim, se sabe que os políticos do Brasil costumam inverter a frase por completo. Primeiro os interesses pessoais, os gostos privados, depois o grupo/partido e seu interesses, por fim, se sobrar tempo, o interesse coletivo. É uma lástima que seja assim.

O brasileiro porém, aprendeu a cobrar extrema virtude esperando que as coisas se tornassem diferentes só por desejo, ao invés de cobrar antes de tudo sinceridade e autenticidade. Não é possível esperar perfeição dos políticos, mas é possível esperar que antes das imperfeições particulares e de grupo, o interesse coletivo seja a máxima de um governo.

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